| Alberto Cedrón - FELIZ AVENTUREIRO |
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FELIZ AVENTUREIRO (Início do cap.1)
Novela biográfica sobre Alberto Cedrón da escritora brasileira GIZELDA MORAIS onde a autora reinventa a vida aventureira do artista, através das suas viagens pelo mundo, dos seus amores e dificuldades. FELIZ AVENTURERO (2001) - Premio Especial do Jurado, União Brasileira dos Escritores, 2002.
Alberto Cedrón nasceu em Buenos Aires, em 1937, no seio de uma família numerosa onde se incentivava o prazer pela leitura, arquitectura, música e cinema. Com o pai, ceramista, aprende a trabalhar entre a experimentação e a disciplina, brincando com a Natureza, numa busca formal que será infinita e imprevisível. Só mais tarde, pelo encontro com Jorge Demirjan, Horácio Butler e Juan Carlos Castagnino, parece alcançar resposta para as suas incessantes dúvidas, não abandonando nunca o inconformismo com que enfrentava a Arte. Venezuela, Brasil, Chile, França, EUA, Itália, Paraguai ou Portugal, lugares que de perto privaram com as opções plásticas de Cedrón. O desenho, a pintura, a escultura, a cerâmica, a gravura. A experimentação com base em materiais convencionais ou alternativos, nunca sujeitos a padrões e correntes. “...passaram mais de 50 anos, sobre paredes, papel, pedra, latão, argila, “sucata”, enfim, materiais diversos, suportes diversos e também momentos históricos diversos.” (...) e a mestria da sua técnica e criatividade expressivas, o seu reportório repleto de ingredientes populares, auto-biográficos, eróticos e sensuais, lúdicos ou familiares, de crítica social ou simbólicos, foram bastantes para realizar mais de uma centena de exposições individuais e colectivas, ser distinguido com mais de uma dezena de prémios e condecorações e procurado por coleccionadores públicos e privados. Quando amplamente amadurecidos, Obra e Artista acabaram por fechar-se em si numa angústia que viria a transformar-se em profunda indignação. Alberto Cedrón morre em 2007, não sem antes avisar: “Eu não me entrego”. (Álvaro Lobato de Faria, dir. MAC)
Um clima de paixões, ciúmes, traições, amores, vilanias emana do interior da caverna figurada na tela. As pupilas da visitante se dilatam. Tropeça no busto de uma Vênus sem cabelos, cavas sem olhos, espreitando diretamente da superfície do cérebro. Envolve-se, penetra nos meandros das tintas, mistura-se nas cores fortes, nas figuras de homens e mulheres de eras desconhecidas. São as telas da série Subterrâneos. Cada uma delas representa uma cena, como no teatro. Personagens vão desfilando no subsolo da terra, saindo das camadas inferiores do subconsciente do artista. São seres concretos e imaginários, antigos e modernos. O homem, à luz fraca dessa manhã de julho, ofega dentro de seu corpo atarracado. - A vida é assim, passado e futuro só existem na nossa cabeça, menina. A visitante levanta os olhos. Embora a tintura de seus cabelos lhe esconda as marcas da idade, sabe, está longe de merecer aquele tratamento.
Desconhece o detalhe da recente convivência do artista com os portugueses que o leva a substituir o brasileiro senhorita pelo carinhoso tratamento de menina. Desvia o seu olhar para um grosso volume de jornais pousado sobre a mesa. Na página aberta, a foto do rapaz lembra o ar misterioso do jovem Marlon Brando - Alberto Cedrón expõe pinturas e cerâmicas. A data do jornal trinta anos mais velha, a foto do artista trinta anos mais novo. Estão matando cavalos, menina. Com tanta oferta barata de sexo na televisão, estão matando a sexualidade. Os cavalos são o símbolo da sexualidade. À direita têm um significado; à esquerda têm outros. Ele mesmo nunca experimentou daquela carne, embora o preço fosse baixo nos açougues de Paris onde quase morreu de fome. O touro é o Alfa, a primeira letra do alfabeto grego. A vaca representa a mãe terra, por isso os hindus respeitam as vacas. Começaram a mexer com os símbolos mais arcaicos, sagrados, veja o resultado - a síndrome da vaca louca. Não é brincadeira nem invenção da mídia. Saiu de Portugal quase correndo, em parte tangido pelo medo dessas vacas loucas. Andava bem de vida, de repente, a síndrome da vaca louca. Vendeu os seus pertences a baixo preço, gastou trinta mil dólares para encaixotar seus instrumentos de trabalho. O resto deixou lá. Trouxe toda esta tralha para Porto Alegre. De fato, nunca viu em carne e osso um infeliz atacado da doença, viu na TV as imagens virtuais. O indivíduo erra sem equilíbrio, tomba como estátua. O cérebro se transforma em uma esponja, o corpo vai paralisando, os olhos petrificados, a voz não consegue exprimir a grande dor. No princípio também não acreditavam na AIDS. Achas que vão sacrificar milhares de vacas em toda a Europa?
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